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Paratuberculose: Onde estamos?

Paratuberculose: Onde estamos?


Apesar de avanços claros em relação a doenças como a febre aftosa, brucelose e tuberculose, pouca atenção tem sido despendida para a paratuberculose, uma enfermidade responsável por inúmeros prejuízos aos produtores e potencial de transmissão para humanos. A paratuberculose caracteriza-se por um processo inflamatório granulomatoso no intestino que determina a redução na digestibilidade dos alimentos e, consequente, queda na produção de leite, que pode variar de 4 a 20%, e no ganho de peso, com consequente diminuição da vida útil e do valor comercial dos animais infectados. Além disso, a infecção frequentemente provoca redução da eficiência reprodutiva. Considerando-se a carência de informações sobre a dimensão e importância da paratuberculose para a pecuária brasileira é necessário alertar produtores e técnicos sobre suas apresentações e quando e como suspeitar da doença.

Introdução

O Brasil ocupa um lugar de destaque na produção mundial de carne e leite. É, desde 2008, o líder nas exportações de carne bovina e, atualmente, o quinto maior produtor de leite, além de possuir o maior rebanho bovino comercial com cerca de 209,5 milhões de cabeças. As riquezas geradas pelo agronegócio brasileiro representam cerca de um terço do Produto Interno Bruto (PIB) do país, e estima-se que somente a pecuária seja responsável por 11% do PIB. A conquista de novos mercados e o aumento da contribuição da pecuária para a economia nacional têm se dado, entre outros fatores, em função das políticas para elevar a qualidade, sobretudo, sanitária dos produtos desta atividade. A sanidade dos rebanhos é a principal exigência dos mercados importadores, especialmente, para a comercialização dos produtos e subprodutos cárneos e lácteos.

Apesar de avanços claros em relação a doenças como a febre aftosa, brucelose e tuberculose, pouca atenção tem sido despendida para a paratuberculose, uma enfermidade responsável por inúmeros prejuízos aos produtores e de potencial zoonótico (transmissão para humanos) ainda não completamente elucidado. A paratuberculose, que tem distribuição mundial e altas prevalências tanto na América do Norte como na Europa, caracteriza-se por um processo inflamatório granulomatoso no intestino que determina a redução na digestibilidade dos alimentos e, consequente, queda na produção de leite e ganho de peso.

Considerando-se a carência de informações sobre a dimensão e importância da paratuberculose para a pecuária brasileira é necessário alertar produtores e técnicos sobre suas apresentações e quando e como suspeitar da doença.

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Paratuberculose ou Doença de Johne

Etiologia

A paratuberculose, também conhecida como doença de Johne, é uma doença infecciosa crônica causada pelo Mycobacterium avium subsp. paratuberculosis (MAP), um bacilo álcool-ácido resistente, intracelular facultativo, parasita obrigatório e de crescimento lento. As bactérias desta família são responsáveis por várias doenças de importância veterinária e em saúde pública como a tuberculose, linfadenite cervical, hanseníase e doenças pulmonares crônicas. A paratuberculose acomete os ruminantes domésticos (bovinos, caprinos e ovinos) e silvestres (lhamas, camelídeos, bisões, etc); entretanto, é mais comumente observada em rebanhos leiteiros, provavelmente em função do longo período de incubação da enfermidade associado à maior vida útil destes animais.

 

Importância Econômica

O impacto econômico da paratuberculose é decorrente da queda da produção de leite, que pode variar de 4 a 20%, em função da fase da doença; da perda de peso, estimada em 30 a 54 Kg em comparação com animais MAP negativos; e da consequente diminuição da vida útil e do valor comercial dos animais infectados, estimado em 30%. Além disso, a infecção frequentemente provoca redução da eficiência reprodutiva.

Em um estudo canadense, a perda econômica de rebanhos com animais soropositivos para MAP foi de C$ 49,00 dólares canadenses/vaca/ano. Para infecções subclínicas, os autores estimaram uma média de perda econômica de C$ 385,00 vaca/ano. Os rebanhos soropositivos apresentaram redução na produção de leite de 6% entre a segunda e a última lactação, evidenciando o impacto econômico dessa doença para a pecuária leiteira.

 

Distribuição Geográfica

Amplamente distribuída, a paratuberculose já foi descrita em diversos países como EUA, Austrália, Nova Zelândia, Argentina, Uruguai, Chile, Venezuela e México. Na Europa, a prevalência entre rebanhos bovinos apresenta-se, em alguns países, superior a 50%. No entanto, apesar de baixas prevalência em outros locais, nenhum país possui informações suficientes para afirmar ser livre de MAP. Nos EUA, a maioria dos rebanhos leiteiros possuem animais infectados pelo MAP, e alguns estudos têm mostrado que a prevalência nos rebanhos leiteiros (68%) é superior a de rebanhos de corte (aproximadamente 7,9%).

No Brasil, a paratuberculose já foi considerada uma doença exótica, entretanto, a despeito da escassez de dados, sabe-se que a enfermidade está presente no país. Alguns estudos apresentam somente a suspeita sorológica para descrever a infecção, contudo, evidências irrefutáveis promovidas pela detecção direta do agente também já foram descritas.

A dimensão do problema ocasionado pela paratuberculose para os rebanhos bovino, ovino e caprino é completamente desconhecida no Brasil. Contudo, em razão dos esporádicos, porém frequentes, diagnósticos positivos, é possível afirmar que a doença está presente no rebanho nacional. O Brasil possui descrição de paratuberculose em rebanhos bovinos desde a década de 1960 e, mais recentemente, a doença também foi diagnosticada em ovinos, caprinos e bubalinos. A paratuberculose já foi relatada nos estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraíba, Pernambuco e São Paulo.

Todavia, apesar do diagnóstico conclusivo desses relatos, não existem levantamentos de prevalência de propriedades ou animais positivos em nenhuma região ou município da federação. Apenas dois inquéritos investigaram a presença da paratuberculose bovina em número mais expressivo de propriedades nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro; entretanto, a ausência de delineamento experimental não permite a extrapolação dos resultados.

Transmissão

Os animais infectados são a principal fonte de disseminação dentro da propriedade, uma vez que eliminam grandes quantidades de bactérias nas fezes. O tempo médio entre a infecção e manifestação clínica da doença é de cinco anos, sendo tanto menor quanto maior for a carga infectante. A idade de início de excreção do MAP nas fezes depende da prevalência na propriedade, da suscetibilidade genética, da idade no momento da infecção e da dose infectante. Em rebanhos com altas taxas de prevalência, o gado começa a excretar MAP mais jovem, antes de 2 anos de idade. Além disso, bovinos suscetíveis em rebanhos com alta prevalência de infecção são expostos a uma maior dose infectante. Some-se a isto, a alta persistência do microrganismo no ambiente, que sobrevive por mais de um ano, e até 17 meses na água. Estas características fazem com que a transmissão e difusão do MAP dentro de um rebanho seja muito facilitada.

Em sistemas de exploração leiteira, os bezerros são a categoria mais susceptível à infecção em função da incompleta maturação do sistema imunológico, do favorecimento dos anticorpos presentes no colostro à entrada do MAP nas células intestinais, e em função da maior permeabilidade intestinal nas primeiras horas de vida. A infecção ocorre principalmente por via digestiva, pela ingestão de fezes, leite ou colostro contaminado. As fezes, em função de seu volume, quantidade de MAP presente, e pela resistência do MAP no ambiente, representam a principal forma de disseminação ambiental, podendo contaminar alimentos e água.

Outras fontes de contaminação, entretanto, também são importantes. Nos estágios subclínicos, 8,3% das vacas eliminam MAP no leite, enquanto que nos estágios mais avançados da doença este percentual sobe para 35%. Assim, o leite e o colostro também são importantes vias de transmissão para os animais jovens. A transmissão transplacentária é observada tanto em vacas na fase subclínica (9%) como na fase clínica (39%) da doença. O grau de infecção intrauterina é dependente de dois fatores principais: a prevalência da infecção no rebanho e o grau de infecção da vaca gestante, com maiores níveis de transmissão intrauterina em vacas clinicamente afetadas em comparação com as assintomáticas. Outras formas de infecção potenciais, entretanto com menor relevância para a epidemiologia da doença, são a venérea e via exame transretal.

 

Patogenia

A maioria dos bovinos positivos para paratuberculose foram infectados por via oral ainda quando bezerros e, em função do longo período de incubação, só manifestam a doença em períodos mais tardios de sua vida produtiva. No intestino, o MAP tem predileção pelo íleo, pela presença de células M nesta região, o que facilita a entrada do agente na mucosa.

Uma vez dentro da mucosa, o MAP é fagocitado (englobado) e, geralmente, consegue sobreviver dentro destas células fagocíticas. Em função desse processo, o MAP persiste no hospedeiro durante muitos anos, sem sinais clínicos. As lesões são normalmente restritas ao intestino e caracterizadas por intenso infiltrado inflamatório granulomatoso, aumento do tamanho dos linfonodos, espessamento da mucosa, fusão das vilosidades intestinais, que em estágios avançados determina o desenvolvimento de diarreia má-absortiva e hipoproteinemia.

À necropsia os principais achados são confinados à porção terminal do intestino delgado e linfonodos associados. Os linfonodos estão aumentados de tamanho (3 a 5 vezes) e edematosos. A mucosa intestinal, especialmente a do íleo, apresenta-se muito espessada e edemaciada, apresentando características de circunvoluções cerebrais (Figura 1). Conforme a doença avança, a infecção se dissemina para órgãos distantes do trato gastrointestinal pelos vasos sanguíneos e linfáticos. As bactérias são transportadass para outros locais, particularmente útero, feto, glândula mamária, testículos e sêmen.

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Sinais Clínicos

Nos rebanhos onde a paratuberculose está presente estima-se que, para cada animal que apresenta sinais clínicos avançados, existam outros 15 a 25 infectados. Por isso, embora os custos sejam significantes para animais com sinais clínicos, as perdas decorrentes da paratuberculose subclínica podem ser mais devastadoras, por ocorrerem em um maior número de animais, sendo, portanto, mais prejudiciais ao rebanho e à indústria.

A infecção pelo MAP pode ser dividida em quatro estágios, em função das manifestações pré-clínicas e clínicas da doença. Logo após a infecção tem-se uma fase silenciosa da doença, que é praticamente imperceptível e de difícil diagnóstico, conhecida com estágio I. Nesta fase, o animal consegue manter uma resposta imunológica que contém o avanço da doença, portanto a quantidade de microrganismos liberados nas fezes é pequena, sendo o diagnóstico possível apenas por biopsia da mucosa intestinal.

No segundo estágio, a infecção é chamada subclínica, uma vez que, mesmo na ausência de diarreia e sinais aparentes, os animais estão eliminando o MAP nas fezes, sendo detectável por cultura ou sorologia em apenas 15 a 25% dos casos. Ainda nesta etapa, os animais podem apresentar infertilidade, redução da produção de leite e de ganho de peso, todavia, esses sinais, na maioria das vezes, não são detectados pelo proprietário, tratador ou veterinário. Vale ressaltar que, mesmo na ausência de manifestação clínica, os animais com infecção subclínica estão contaminando o ambiente e sendo fontes de infecção para outros dentro da propriedade.

O estágio III é caracterizado por sinais brandos da infecção. Os animais geralmente apresentam fezes pouco consistentes e quadros de diarreia intermitente, que duram, em média, 3 a 4 meses e rapidamente progridem para o próximo estágio. Frequentemente, na fase III, ainda que sem o diagnóstico definitivo, ocorre o descarte da maioria dos animais infectados em função das perdas produtivas que apresentam. Neste estágio, a sorologia é positiva e há grande eliminação de MAP pelas fezes, o que facilita o diagnóstico bacteriológico.

Finalmente, o quarto e último estágio é distinguido pelo quadro clínico característico de paratuberculose (Figura 2), no qual se observa intensa perda de peso, caquexia, diarreia profusa e constante, infertilidade, hipoproteinemia, edema submandibular e desidratação, sendo a quantidade de MAP liberada nas fezes muito grande. São raros os casos em que o animal é mantido no rebanho até alcançar o estágio adiantado da doença de Johne, já que em face dos prejuízos, os animais são descartados antes desta etapa.

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Diagnóstico

Um dos grandes desafios em relação a paratuberculose é definir a estratégia e selecionar o teste mais apropriado ao diagnóstico. Os métodos mais utilizados na determinação da infecção são a identificação do agente nas fezes, por cultura ou pela reação em cadeia da polimerase (PCR), e a pesquisa de anticorpos no soro ou leite por métodos imunoenzimáticos (ELISA). Entretanto, é preciso considerar que o isolamento do agente, apesar de ser o método de referência para o diagnóstico da paratuberculose, é extremamente laborioso e demorado, podendo levar até 8 meses para obtenção do resultado definitivo.

As características dos testes de diagnóstico variam de acordo com o estágio da infecção. Geralmente, os testes detectam animais com doença mais avançada e, como somente uma pequena parte dos infectados está nessa fase, a taxa de detecção é baixa. Por causa da baixa sensibilidade, é recomendado testar os animais em intervalos regulares, por exemplo, anualmente, principalmente a partir dos 2 anos de idade, por sorologia e cultura de fezes. O exame histopatológico do intestino delgado (íleo) e linfonodos mesentéricos pode ser usado para diagnóstico, pois bacilos álcool-ácido resistente podem ser observados na mucosa e submucosa desses tecidos. A avaliação clínica do rebanho e o histórico da propriedade podem sugerir a infecção, mas sempre devem ser complementados pelo diagnóstico laboratorial.

 

Controle

A grande dificuldade em relação ao controle da paratuberculose é que, frequentemente, os animais infectados eliminam grandes quantidades de MAP nas fezes antes de apresentarem quaisquer sinais clínicos, dificultando a adoção de medidas preventivas.

A separação e criação individual dos bezerros é uma das práticas mais efetivas para o controle da paratuberculose. A separação do bezerro da vaca logo após o nascimento tem tido êxito, de 28 a 56%, na redução da transmissão nos EUA. Também a alimentação dos neonatos e bezerros com colostro e ou leite pasteurizados, provenientes de uma única fêmea não infectada, tem se mostrado uma medida efetiva para a prevenção da infecção pelo MAP.

Outras medidas preventivas incluem minimizar o contato entre animais adultos e jovens e identificar e eliminar animais infectados. Em propriedades positivas, deve-se evitar a utilização de esterco para adubar o pasto de bezerros, utilizar inseminação artificial ou touros sabidamente negativos e, principalmente, promover educação sanitária.

O tratamento dos animais infectados não é indicado, em razão de utilizar as mesmas drogas recomendadas para o tratamento da tuberculose humana, por não promover a cura definitiva, e por não evitar a liberação de MAP nas fezes.

Programas voluntários de controle da paratuberculose foram implantados nos EUA (Voluntary Bovine Johne’s Disease Control Program – VBJDCP), a partir de 1998, e na Austrália (National Johne’s Disease Control Program – NJDCP), a partir de 1995 para bovinos, e de 1996 para caprinos, ovinos e alpacas. O principal objetivo desses programas é manter a qualidade sanitária dos produtos comercializados, visando assim a garantia de mercados e, além disso, minimizar as perdas de produção decorrentes da paratuberculose. Ambos os programas são pautados principalmente na educação dos produtores e veterinários, na conscientização dos prejuízos provocados pela paratuberculose e na adesão voluntária às medidas de controle. Estes programas vêm aumentando a conscientização sobre a doença e melhorando o controle da paratuberuclose.

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Potencial zoonótico

A paratuberculose também é apontada como uma doença de potencial zoonótico. A doença de Crohn, no homem, apresenta sinais clínicos e lesões semelhantes a da paratuberculose, e o MAP já foi isolado de alguns pacientes com essa doença. Contudo, existem argumentos fortes para contrapor a participação desse agente na doença de Crohn, como a ausência do MAP quando é realizada histopatologia em fragmentos de intestino de pacientes doentes, a variabilidade encontrada no diagnóstico por PCR de biópsias de intestino, e a baixa taxa de isolamento de MAP de pacientes com a doença.

Em decorrência dessas informações conflitantes, não fica clara a participação do MAP na etiologia da doença de Crohn, mas o risco zoonótico da paratuberculose se torna especialmente preocupante em função da eliminação de MAP no leite de animais que apresentam tanto a doença clínica quanto a subclínica, e em função da resistência do MAP a altas temperaturas, inclusive, ocasionalmente, à pasteurização rápida.

 

Considerações finais

Considerando que desconhecemos a real dimensão da infecção pelo MAP nos rebanhos brasileiros, é muito provável que a produção animal brasileira esteja sendo menos competitiva e produtiva em decorrência da paratuberculose, frente a uma economia global que demanda cada vez mais por carne e leite de qualidade.

As perspectivas de aumento das exportações, com suas maiores reivindicações de qualidade sanitária, além do aumento da procura por proteína animal em função do crescimento da população mundial, subsidiam o investimento em políticas públicas relacionadas a paratuberculose, primeiramente com o objetivo de conhecer e, posteriormente, de controlar a doença, sobretudo, no efetivo bovino. Estes argumentos são reforçados se for considerado o risco à saúde pública relacionado à paratuberculose, apesar de pouco esclarecido, e que não pode ser totalmente ignorado.

Texto: Elaine M. S. Dorneles, Fernanda Morcatti, Marcos B. Heinemann, Andrey P. Lage

Fonte: www.revistaleiteintegral.com.br

04/03/2021

 

 

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