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Capacidade de remover carbono do ar com tecnologia tem de crescer ao menos 30 vezes até 2030

Capacidade de remover carbono do ar com tecnologia tem de crescer ao menos 30 vezes até 2030

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Se a humanidade quer uma chance de vida decente no futuro — com ar respirável, água limpa acessível, chuvas e safras previsíveis — precisa começar a retirar da atmosfera mais carbono do que emite, e em grandes quantidades. O jeito mais eficiente de fazer isso, atualmente, é tradicional: preservar florestas existentes e plantar árvores. Mas precisamos acelerar muito esse processo com novas técnicas de captura e armazenagem de carbono, alerta o relatório Estado da Remoção de Dióxido de Carbono, o estudo mais completo até agora sobre esse desafio da humanidade.

A situação atual é a seguinte: mais de 2 bilhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2) estão sendo removidas da atmosfera a cada ano, graças às iniciativas de enfrentamento da crise climática. É um começo, mas temos de fazer muito mais — e rápido. Segundo o relatório, precisamos chegar a 2030 removendo pelo menos 3,5 bilhões de toneladas de CO2 da atmosfera todo ano, a fim de conter o aquecimento global em menos de 2°C até o fim do século 21. Os planos existentes não bastam para nos colocar nesse rumo. Hoje, a limpeza da atmosfera é feita quase que só com árvores — gestão de florestas já existentes, reflorestamento (plantio de árvores onde florestas foram desmatadas nas últimas décadas) e florestamento (plantio de árvores onde nunca houve floresta ou, se houve floresta, foi desmatada faz muito tempo). Novas técnicas — explicadas abaixo — respondem hoje por apenas 2 milhões de toneladas de CO2 capturadas por ano, ou 0,1% do total. A tecnologia nessa área precisa melhorar muito, para que não dependamos somente de mais árvores no mundo.

O alemão Artur Runge-Metzger, doutor em economia agrícola e ex-diretor de Ação Climática da Comissão Europeia, escreve a introdução do relatório e alerta para a complexidade do desafio em RDC (remoção de dióxido de carbono): “Os cientistas apontam para uma lacuna que começa a crescer, entre a necessidade cientificamente avaliada (de RDC), de um lado, e, do outro lado, a falta de ação em RDC ao longo de toda a cadeia produtiva. Essa lacuna exige ação urgente em todas as frentes”.

“Todas as frentes” significa que não se pode desprezar nenhum recurso que contribua com a solução do problema. Além de preservar, criar e recriar florestas, a tecnologia nesse campo precisa avançar. Isso exige planejamento estratégico. “Os primeiros anos de desenvolvimento de tecnologia (a ´fase de formação´) vão afetar o ritmo e o grau de alcance das novas formas de RDC no longo prazo”, afirma o relatório. “A difusão das novas formas de RDC na próxima década é crucial, pois se falharmos em dar impulso (à tecnologia) nesta fase de formação, vamos aumentar a lacuna (entre o que é necessário fazer e o que a humanidade está fazendo) em 2050 e além.”

O estudo contou com a colaboração de 30 cientistas espalhados por seis países e faz referência a 248 trabalhos anteriores.Os pesquisadores avaliaram 91 cenários possíveis para chegar a seus alertas. “Cenários globais que limitam o aquecimento a 2°C ou menos exigem que a capacidade de remoção de CO2 seja multiplicada por 30 até 2030 e por 1.300 até 2050, na comparação com 2020”, afirma o relatório, referindo-se às novas tecnologias. Esses são os cenários intermediários. Quanto mais tempo a humanidade demorar para reagir, maior terá de ser a posterior faxina da atmosfera. No cenário mais pessimista, em que a humanidade corta pouco as emissões e (re)floresta pouco o planeta nos próximos anos, a capacidade global de RDC baseada em novas técnicas precisa ser multiplicada muito mais, por 4.900, até 2050. No cenário mais otimista, em que a humanidade corta muito as emissões e (re)floresta o planeta em escala enorme, seria preciso multiplicar por “apenas” 260 a capacidade de RDC com novas técnicas até 2050.

O estudo só levou em conta formas de armazenagem capazes de prender o carbono por pelo menos décadas. Essas formas se agrupam em três categorias: 1) armazenagem biológica, como em árvores, florestas de algas (que afundem no oceano e se tornem sedimento depois de morrer) e solos (compostos variados podem prender carbono no solo por décadas); 2) armazenagem em produtos, feitos de madeira, carvão vegetal ativado e outros materiais criados a partir da extração de CO2 do ar ou dos gases resultantes de atividade industrial; 3) armazenagem geoquímica, com a injeção de CO2 em formações geológicas adequadas, a exemplo de reservatórios vazios de petróleo e gás natural.

Todos os métodos exigem evolução tecnológica. O relatório destaca os seguintes, pela relevância atual e pelo potencial:

– Bioenergia com captura e armazenagem de carbono (BECCS, na sigla em inglês) — é o método mais importante atualmente. Consiste em produzir biocombustível em algum processo que já preveja captura permanente de carbono. Há aumento regular do número de patentes nesse campo desde 2006. Essa foi a técnica que mais rendeu depósitos de patentes em 2020. Foi também a única cuja percepção pública piorou, segundo um análise dos pesquisadores feita durante três anos (2019 a 2021) no Twitter. Essa piora provavelmente se deve a receios de que lavouras para bioenergia diminuam a área disponível para cultivos alimentares e encareçam a comida.

– Captura e armazenagem de carbono diretamente do ar — na comparação entre nove métodos, foi disparado o que mais rendeu depósitos de patentes desde 2000. Em setembro de 2022 havia 18 instalações industriais no mundo realizando captura direta do ar (ou DAC, na sigla em inglês). Nos Estados Unidos, a Lei de Investimento em Infraestrutura e Empregos, aprovada em 2021, previa US$ 3,5 bilhões para quatro hubs de DAC, incluindo o transporte do carbono por dutos e sua armazenagem. Ainda não se sabe, porém, quanto do carbono capturado nessas usinas será transformado em combustível — ou seja, logo jogado de volta na atmosfera — ou armazenado de forma duradoura.

– Biocarvão — o carvão vegetal ativado, também chamado pelo nome em inglês, “biochar”, é feito de biomassa queimada por pirólise, um processo controlado em ambiente com pouco oxigênio. Isso resulta numa substância sólida que pode ser usada como material de construção ou adubo. A pesquisa em “biochar” é a que cresce mais rapidamente entre todos os métodos de RDC e correspondeu a 50% dos estudos publicados em 2021.

– Aprimoramento de intemperismo rochoso — o intemperismo natural (conjunto de processos físicos e químicos que alteram rochas expostas à atmosfera) inclui certas rochas absorverem carbono do ar. O processo normal é lento demais diante da crise climática. É possível acelerá-lo com a pulverização de certos silicatos em grandes áreas expostas, como lavouras.

– Gestão de áreas costeiras — certos biomas litorâneos com vegetação densa, como mangues, podem absorver mais carbono que florestas. É necessário preservá-los e expandi-los. O que essas áreas retiram da atmosfera é chamado de “carbono azul”.

– Fertilização oceânica — consiste em aumentar a quantidade de nutrientes, principalmente ferro, em grandes áreas do oceano previamente selecionadas. A fertilização estimula a proliferação de fitoplâncton, que captura carbono da atmosfera.

Há muitas frentes de trabalho e inúmeras incógnitas à espera de estudos. Um esforço de pesquisa e desenvolvimento dessa magnitude depende de trabalho conjunto de governos, academia e empresas. E quanto antes esse esforço se intensificar, melhores serão as chances de a humanidade salvar o mundo como o conhecemos.

Fonte: 360 News

visaoagro.com.br 07/02/2023

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